Estava eu bela e formosa passeando pelo meu condomínio quando vejo uma senhora – uma ilustre desconhecida para mim – se aproximar com o seu cachorrinho pug. O cachorro me cheirou – possivelmente atraído pelo cheiro da minha shitzu – e logo depois ela soltou o comentário: “Uau, que saia linda!”. Ela se referia a uma saia midi de moletinho, azul com uma estampa. Ganhei do meu namorado no natal, diretamente de um outlet. A saia é realmente uma graça – assim como o bom gosto do meu namorado – mas o que ela gritou em seguida me chamou muito a atenção. “É da Nike!”.
Eu amei a estampa e não tinha me tocado que a estampa é um conjunto infinito daquele símbolo icônico da marca. Eu ganhei a saia de alguém que, com certeza, também não se ateve a isso, mas sim à qualidade, beleza e claro, preço bom, da dita cuja. Para o mundo, estaria eu usando aquela saia para ostentar?
O pensamento me arrepia até agora e confesso que estou com dificuldade de usar a coitada de novo. Morando num bairro nobre da Zona Leste de São Paulo, por aqui a ostentação é quase a lei. Carros mais caros que os próprios apartamentos do meu condomínio – chegando a valer o dobro – são bem comuns. Na apertada vaga compartilhada da minha garagem, divido o espaço escasso com uma Porshe Cayanne que deve valer em torno de 600 mil. Os famosos SUV´s brancos abundam na garagem, cheios de crianças indo e voltando da escola. Adolescentes com sons insanos – e letras de conotação duvidosa – passam “a milhão” pelo portão principal.
Mas, o que é luxo de fato? Ostentar a saia da marca? A marca expressa em qualquer peça? Todos sabemos que as verdadeiras marcas de luxo não precisam ostentar nenhuma logo. O luxo verdadeiro é notável pela qualidade – como o algodão vindo diretamente do Peru ou malha de alpacas criada especialmente para marcas de superluxo. Um bom artigo de luxo não precisa de nenhuma insígnia. Não é feito para ser mostrado, mas para ser apreciado. Luxo não precisa fazer barulho. A questão é que, inseridos nessa cultura ostentatória brasileira, acabamos por participar do jogo mesmo sem querer, o que pode nos colocar numa posição delicada, para dizer o mínimo.
O luxo passa pela educação, pelo respeito ao próximo, coisa que com certeza não combina com o sons estridentes e outras formas de invasão silenciosa ao espaço de terceiros. Ninguém precisa de um carro maior do que a sua garagem – e bem melhor seria ter um carro mais simples e poder pagar a comodidade de um bom motorista.
Meus padrinhos, que os deuses os tenham, davam festas para a Hebe, Cauby Peixoto e Ângela Maria. Hoje, as festas regadas a coiote (seja lá o que isso for) são para mostrar a quantidade de carne que se pode pagar. Poxa, são tempos difíceis para os sonhadores. Mas, como ouvi de um cabeleireiro uma vez: sabe como você reconhece se uma bolsa de luxo é verdadeira? Olhe para a dona. Isso, meu bem, nenhuma marca (ou aparência) pode dar para você.
Por Andrea Pavlo
Mentora de bem-estar e espiritualidade
@andreapavlo