Mailú, Mila e Lilian com peças criadas por Alceu Penna para o desfile-show Rio 400 anos, em 1964 (Foto: Rhodia/ Divulgação – Vogue)
Como parcerias entre designers e artistas estão redefinindo o conceito de moda no Brasil, explorando cultura, arte e sustentabilidade nas passarelas e nas coleções
No passado, estivemos à frente de diversas criações em parcerias com designers e artistas plásticos comunicando e construindo uma moda brasileira, hoje como as marcas têm explorado essas questões?
Quando paramos para analisar as formas de manifestação da Moda na nossa sociedade, nos deparamos com várias possibilidades no Brasil. Entender como isso é explorado pelas marcas pode ser uma das melhores maneiras de compreendermos o lugar da autoralidade na moda brasileira e, afinal, o que vem a ser a moda brasileira.
Um dos caminhos é analisar pela perspectiva das relações entre a Moda e a Arte, uma vez que a arte tem suas contribuições na formulação de uma moda brasileira desempenhando um papel fundamental na construção dessa identidade. O MASP (Museu de Arte de São Paulo) foi responsável por incentivar diversos projetos voltados para o design e a moda brasileira nos anos 50, tendo como idealizador Pietro Maria Bardi, fundador do museu.
Pesquisando em bibliografias da historiadora da moda Maria Claudia Bonadio, outro fato marcante foi o desfile da Rhodia Têxtil, empresa brasileira que fabricava fios e fibras sintéticas e ganhou projeção de marca ao alinhar a sua imagem às artes, reunindo artistas plásticos e designers brasileiros na criação de diversas peças.
Assim, a relação entre moda, arte e brasilidades se vê presente nos anos 60, sob a idealização de Livio Rangan, gerente de publicidade da Rhodia, que promoveu seus desfiles-shows com o objetivo de impulsionar a indústria têxtil e a moda brasileira através das artes. Assim, artistas como Alfredo Volpi, Burle Marx, Maria Bonomi, Francisco Brennand, Ivan Serpa, Willys de Castro e mais de 70 artistas plásticos, estamparam criações de estilistas como Dener Pamplona, Guilherme Guimarães e Alceu Penna.
Os desfiles-shows eram uma estratégia na época de fazer uma promoção sobre a Rhodia Têxtil através da arte e elevar a moda brasileira a um outro patamar. Visionário, Livio Rangan pensou na possibilidade de criar uma publicidade de moda dando um valor “aurático” que encontramos nas artes, e assim, despertar desejo nas pessoas.
Hoje poderíamos estar falando de Branding e posicionamento da Rhodia, ao criar imagens na cabeça do consumidor, elevando o valor cultural da moda ao associá-la com uma obra de arte, pois é importante ressaltar que as peças não tiveram o intuito de serem comercializadas.
As parcerias entre artistas e designers assim como a escolha de lugares culturais no lançamento de coleções não são de hoje, mas fazem parte das nossas raízes, apesar de ainda estarmos construindo um entendimento de moda brasileira. A pergunta que fica é: como estão sendo exploradas atualmente essas relações? Como os designers vêm expandindo esse alinhamento entre moda e arte?
Na semana do São Paulo Fashion Week 56 (SPFW), a estilista cabo-verdiana Angela Brito marcou a temporada elaborando uma coleção de peças com estampas criadas pelo artista plástico carioca Maxwell Alexandre, foram em torno de cinco estampas que trouxeram como reflexão as peregrinações religiosas. Outro exemplo de relação entre moda-arte que aconteceu recentemente foi o desfile da marca Neriage, na Pinacoteca de São Paulo.
A diretora criativa Rafaella Caniello não só elegeu o museu como espaço para divulgação da coleção, como seu processo criativo foi inspirado no trabalho do artista cearense Leonilson. Um trabalho sensível que traduziu os seus sentimentos evocados ao se conectar às obras do artista, sendo materializadas através das roupas.
A construção da moda se dá não apenas, mas também, pelo viés das artes. Ver as projeções para o futuro de diversas marcas explorando as formas de comunicar moda através da arte e cultura brasileira à luz do seu tempo nos faz refletir sobre o potencial de expansão que existe entre os dois mundos.
O estilista Guto Carvalho Neto é outro nome que se destaca explorando essas relações. Esteve em diversos projetos em parcerias com artistas, e mais recentemente criou uma vestimenta em parceria com a artista Laura Lima para o acervo do MASP.
E quem se destaca também neste ano é a estilista Lenny Niemeyer, lançando sua coleção de verão inspirada na artista brasileira Lygia Clark e o arquiteto Oscar Niemeyer sendo traduzida nas modelagens e, além disso, o uso de matérias-primas como a seda rústica e o crochê de palha de buriti, diretamente de fornecedores brasileiros, dando visibilidade ao artesanato.
A arte pode ser suporte para muitos designers construírem imaginários na moda, é uma forma de acessar questões mais sensíveis e criar experiências cada vez mais marcantes, além de construir uma autoralidade com o que temos de mais potente no Brasil, sendo o artesanato, os saberes manuais e as matérias primas cultivadas aqui um dos caminhos desse tema ser explorado.
Por Gabriela Mallet